Fundação Pró-Memória de São Carlos

Companhia Rio-Clarense

Chamada em alguns documentos como Rio-Clarense ou mesmo Companhia São Carlos, a Companhia Rio Claro de Estradas de Ferro foi construída pela combinação do financiamento dos grandes cafeicultores da região e da influência política de Antônio Carlos de Arruda Botelho e de seu sogro, o Visconde de Rio Claro. O gerenciamento do projeto esteve também nas mãos do Barão do Pinhal, sendo uma de suas primeiras medidas, ainda em 1881, a contratação do engenheiro Paula Souza como responsável pelo projeto da nova estrada.
O engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza – que viria a ser o primeiro diretor da Escola Politécnica de São Paulo – despontava à época no cenário ferroviário paulista pelas atividades desenvolvidas em companhias importantes e pelo trabalho publicado sobre as ferrovias de bitola métrica. O engenheiro já havia acumulado experiência em projetos desenvolvidos nos Estados Unidos e, no Brasil, na Companhia Ituana e na Companhia Paulista. Sua contratação como engenheiro-chefe da estrada de ferro Rio Claro-São Carlos se efetivou em março de 1881.

Paula Souza, além de defensor da utilização da bitola estreita, foi o pioneiro na implantação de um novo método no processo de medição topográfica, o que garantiu uma redução no tempo gasto e uma maior precisão no levantamento dos dados, apesar da inexperiência de seu pessoal. Até então inédito no Brasil, o novo método utilizava o aparelho Taqueômetro Cleps, que foi recomendado pelo engenheiro-chefe da Estrada de Ferro de Orleans na França e fabricado em Paris. O equipamento utilizado na construção da Rio Claro era de propriedade do próprio Paula Souza.
Feitas as medições e os trabalhos de exploração, a construção da linha teve início em 15 de outubro de 1881 e concluiu-se em dezembro de 1882, sendo entregue ao tráfego provisório em 1883. No total, a estrada de ferro de Rio Claro a São Carlos ficou com uma extensão total de 77 quilômetros e 12,34 metros, reunindo ao longo de seu traçado armazéns, estações e oficinas de reparos.
Em maio de 1883, Paula Souza pediu demissão do cargo da empresa de Arruda Botelho. Neste mesmo mês foram abertas as linhas para o tráfego, tendo funcionado em caráter provisório a partir de 14 de outubro de 1883.
Em 15 de outubro de 1884 as linhas foram oficialmente inauguradas para o tráfego regular, com festejos na cidade de São Carlos.
Até 1887 a Companhia Rio Claro de Estradas de Ferro empreendeu sua expansão até a cidade de Araraquara e pelo ramal até Jaú, conforme contrato com o governo provincial. A estrada apresentou bons resultados econômicos e se tornou um dos principais fornecedores de café no estado.
No jornal de 22 de fevereiro de 1887 vem anunciada a renúncia do Visconde do Pinhal ao cargo de diretor e presidente da Companhia Rio Claro de Estradas de Ferro. A renúncia de Arruda Botelho abriu as portas para a possibilidade de venda da Estrada de Ferro de Rio Claro. No início de 1888, a Paulista apresentou ao presidente da Rio Claro, Firmino de Moraes Pinto, a proposta de fusão das Companhias, que inicialmente foi bem-aceita, desde que fosse completa e as ações tivessem valores paritários. Porém, ainda em 1888, a Paulista recusou a paridade do valor das ações das empresas, e fez nova proposta na qual a base do valor fosse de duas ações da Paulista para três da Rio Claro.
A nova proposta foi recusada e o negócio malogrou. Mais uma vez, a Paulista ficou longe de empreender sua expansão para a região centro-oeste do estado

Em 26 setembro de 1889 foi assinada a escritura de venda da Companhia Rio Claro de Estradas de Ferro a um grupo inglês formado por investidores do English Bank of Rio de Janeiro, São Paulo Railway Company e do Union Bank of London. A nova companhia passaria a ser conhecida como Rio Claro São Paulo Railway Limited, ou Rio Claro Railway.
A administração inglesa da Rio Claro Railway teve uma história breve. Logo em 1889, quando assumiu o controle da empresa, os novos administradores promoveram a expansão da linha de Araraquara e Jaboticabal, além de iniciar a construção dos ramais de Água Vermelha e Ribeirão Bonito.
Mesmo tendo alcançado sucesso financeiro, a Rio Claro Railway foi colocada à venda. As motivações residiam, em parte, nas incertezas diante das políticas econômicas implantadas no Brasil no início da República, que causavam desconfiança nos investidores ingleses, e, em outra, na insatisfação dos produtores paulistas em relação ao serviço prestado pela companhia.
Mais uma vez a Companhia Paulista viu a oportunidade de adquirir a estrada de ferro de Rio Claro. O negócio foi efetivado 1892, liberando a Paulista para expandir seus negócios em direção ao centro-oeste do Estado. É preciso salientar que muitos viram, na época e posteriormente, como um mau negócio para a Paulista a compra da Rio Claro das mãos dos ingleses, uma vez que o valor pago teria sido muito maior do que aquele proposto na fusão, anos antes. De toda forma, o sucesso da estrada de Rio Claro e os caminhos que abriu para a Companhia Paulista durante o final do século XIX e começo do século XX se mostraram compensatórios às pretensões da empresa.

 

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